lunedì, giugno 19, 2006

O ENTERRADO VIVO sob a ótica de vivos socialmente enterrados.



Ineptos, sufocados, silenciosos, a falta de certezas do homem moderno, a crise de valores e incapacidade de agir sobre o que está ao seu redor, a recorrência às ilusões do passado como base para as insólitas perspectivas de um futuro previamente determinado.

Jogos de palavras impiedosas que evocam a ironia maliciosamente rítmica do poema.

Eis alguns questões trazidas à tona em meio às poucas palavras de horas silenciosas dos vivos socialmente enterrados que procederam a este inacabado exercício de reflexão poética.

A repetição que sempre leva ao desassossego permanente, porque em cada sensação, cada ato que se repete, cada elemento que parece já ter sido vivenciado, degustado, não satisfaz a ânsia por algo que não se sabe o que é, mas que denota um vazio e a necessidade de experimentação em busca de uma completude, os orgasmos sucedem-se, mas nunca serão os mesmos comparados com a sensação de que o porvir poderá prover melhores e mais satisfatórios orgasmos, e este orgasmo é o desabafo, é o grito, é a convulsão em meio ao ressoar abafado do medo e da excitação que o porvir provoca. O orgasmo é finito, está no passado, e o último sempre será melhor do que todos os outros. E ânsia pelo vir-a-ser é ainda maior, todavia o pânico o toma de assalto, porque o sempre que nos dá a idéia de imutabilidade e o aquele que nos dá idéia de algo que já se conhecer, não parece dar ao sujeito alguma perspectiva mais alentadora.

O presente nada mais é que uma espera, uma trégua vigiada, a bem da verdade, uma dissimulação de um intervalo. Como reagir aos mesmos golpes, às mal-sucedidas investidas? Elas usam novas vestes, enganam e se travestem como amenizadores de consciência.

Ah, mas é sempre, não sabe quando, nem porque e nem quando findará. E aquele orgasmo, aquele duplo, aquele pânico, não são quaisquer desconhecidos. Provocam os mesmos estragos, ânsias, pequenas satisfações. O peito sufocado encerra as garras de quem ainda arranha o bolha das representações cotidianas tentando romper o entediante desespero. O eixo da sucessividade, apesar das repetições que de tão constantes supõem o falso tédio, marcam o sujeito. É como se fosse o rio que não é o mesmo, nem o sujeito que

não é o mesmo quando se banha duas vezes, quando se pensa que apenas a mudança é permanente, apesar de tudo parecer igual, apesar de nós parecermos os mesmos.

E ainda assim, acenamos em meio ao tédio, não se sabe a quem, ou buscando o quê, o meu aceno é inquietude, é balbuciar que não sou mais o mesmo, mas porque insisto na comodidade de um aquele travestido de sempre? O pavor diante da incompreensão, do estar à margem e da inaptidão decretada pelos burocratas que velam pela moral e pelos costumes castradores do homem.

Os olhos são o mesmo de outrora, mas o sujeito ressente-se de sua impotência consciente, posto que ao acenar, e entrever a garra no peito, afirma que no sonho, que como a palavra sonho parece denotar algo que não angustia, que é delicioso, é satisfatório, há uma guerra, um combate, uma disputa entre o imanente e o latente.

O sujeito se nega a ultrapassar as barreiras da convencionalidade, do instituído, o que lhe garante uma sobrevida em meio às máscaras das representações sociais, mas que lhe crava mais um trauma, uma frustração. É o drama do homem moderno, envolto nas exigências e modus vivendis de uma sociedade que lhe impõe gostos, perspectivas, objetivos, sensações que fundamentem um arquétipo moral e estético que dêem substrato e funcionalidade ao teatro burguês da representação cotidiana.

Todas as tentativas ou esboços de revelia diante do limite e da estampilha que lhe impõem, do não que é obrigado a proferir, da luta contra um eu que lhe causa repugnância são frustradas, o sujeito é amordaçado, é configurado, é treinado a responder sempre da mesma forma, sempre do mesmo jeito, ainda que este sempre, ainda esta repetição lhe provoque um acumulo de inquietações, de crises frente a sua tragédia da impossibilidade. Encarcerado num eu moldado pelas exigências de uma moral hipócrita e conservadora, que o mesmo reconhece introjetada em si mesmo quando afirma que o seu inimigo está dentro dele.

Os lábios são compulsoriamente selados: a inadequação e perturbações do espírito diante da censura e do aborto cotidiano aprofundam a descrença de que nada mais é tangível, de que seus bramidos são inaudíveis em uma sociedade de surdos.

Enterra-se o que está morto, o descartável, o dispensável, a matéria bruta que não exerce nenhuma atividade reflexiva, o enterrado deprecia-se, desintegra-se. O vivo pulsa, interage, age, é sujeito. A aparente incompatibilidade desvanece, quando pensamos no homem contemporâneo diante de uma existência atormentada não apenas pelas incertezas diante de um mundo que, a despeito das mudanças rápidas, mantém o substrato do aprisionamento do individuo, recluso em suas incertezas, temerosos em desvendar o que está atrás do espelho.

Entre máscaras, disfarces e boicotes é ausência que sempre permanece, é a redução da condição humana ao asfixiante caixão da sociedade burguesa.

Abaixo dos sete palmos das representações sociais, o enterrado vivo, posto que ainda é vivo, se debate inutilmente, depreendemos nos versos do poeta.

Os mortos não falam, as rosas não falam... E os coveiros que possuem faces heteróclitas que transfiguram-se em feições do sujeito enterrado resmungam - enquanto providenciam as pás, a terra, os discursos alienantes, os mentores da sujeição aos dogmas da sociedade capitalista , os aparelhos ideológicos da castração, e é claro, o apanágio da subversiência cristã - tossem e resmungam, novamente:

“adeus, composição que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade..”

(verso do poema Os últimos dias)

Nessun commento: