
Piercings, manchas, espinhas, olheiras, dentes irregulares, olhos grandes, olhar de peixe morto, quelóides nas orelhas, mais manchas, antes fosse apenas isso refletido no espelho. Possivelmente, não seria tão doloroso quanto ver através do espelho como Alice o fez após desvendar o país das maravilhas.
Meu olhar através do espelho revela uma face aparentemente jovem, mas substancialmente marcada pelas inseguranças e frustrações de uma falta e excesso de experiências.
A ausência num sorriso infantil que não desnuda as horas preenchidas por pesadelos, alucinações e tentativas desesperadas de ocultar com metal, acrílico e lentes, o desconserto e o medo da rejeição.
Traços óbvios, desajeitads e pupilas negras desconectados do aqui e agora dos acontecimentos da vida cotidiana.
A ansiedade e teimosia nas espinhas e nos piercings que quase nunca cicatrizam, assim como as recordações.
O riso aparentemente (e simuladamente) fácil, a galhorda, a boca que sempre se move e revela um formato de dentes que se distanciam da maturidade. São máscaras, disfarces de um mesmo eu.
O olhar triste, cansado e desanimado, mas que não se furta de observar e desconstruir e desmontar e refazer e...e...e... o que está fisicamente próximo, distante , ausente.
E falo com os outros, com o mundo, na tentativa de compreender as minhas contradições.
A palavra é o meu bálsamo. As cores de minhas vestes refletem o meu pesar, mas também o meu inconsistente e confuso desejo de fazer parte do que é alteridade e transitoriedade.
Marco no corpo a compatibilidade do agreste e do melancólico.
Não pertenço a todos, pertenço a todos, não pertenço a ninguém e a nada, encosto-me, embrigado-me e transito entre um verso de Florbela e um tabefe de Bukowski.
Entre a ortodoxia militante, as rupturas e as lágrimas.
Facilidade para convencer, discursar e transitar? Se você acredita nisto, meus pêsames.
Não, não! A necessidade de polemizar e desaprender na diversidade, sem a preocupação de que há algo para concluir.
Amanhã, amanhã, amanhã, às vezes, tenho a impressão de que a minha (des) crença no porvir está lá com o Álvaro de Campos,
e o pessimismo ajustado a tal da Rosa, Bianca, Rosa Bianca, ou seja lá o que for conveniente.
E se alguém me questionar a respeito de minha personalidade Peter Pan, eu vos digo:
Para quê crescer, se os tais adultos só se preocupam se você está incrivelmente gorda, ou incrivelmente magra, ou incrivelmente dopada, comumente chata,
insuportável,
desocupada,
usa mochilas,
odeia batom e ainda quer encontrar que veja para além de suas cadernetas escolares, blá blá.
merda,
preciso tomar banho.
Sonhos?
Ah, estou enjoada....
Me vê um pãozinho de atum.

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